
Ao longo destes 20 anos de vida, aprendi muita coisa. E uma dessas coisas que me ensinaram e nunca esqueço, é saber a dar o braço a torcer (não muito senão pode doer) e a reconhecer os erros. Um desses erros foi ter criado uma opinião sobre o livro “O Código Da Vinci” sem o ter lido (erro enorme). Pois é, hoje acabei de o ler. E ainda bem que tive a feliz ideia de o ler. Por isto, sinto-me na obrigação de fazer uma pequena análise a esta obra, que me parece muito actual e pertinente.
Como um simples romance, este livro é muito bom. Tem boas personagens, tem bons “cenários”, tem muitos ingredientes de interesse (intriga, pormenores sórdidos que todos gostamos de ler, revelações…) e tem, acima de tudo, um tema interessantíssimo. Eu diria até que a personagem de Sophie Neveu dá vontade de ter em casa, só para nós, quase num acto de egoísmo. O livro é vício do princípio ao fim e são 500 e poucas páginas que parecem 50… É muito bom.
Passando ao ponto fulcral do livro, este pretende ser quase um documento histórico. E tem potencialidades para isso. Juntamente com alguns livros que abordam este tema (alguns apenas, porque muitos deles são puro amontoado de folhas…) pode vir a fornecer importantes dados para um futuro próximo. Confesso que o tema “mexe” com muita coisa, conceitos estabelecidos há séculos. No entanto, não o encaro como um documento que apela ao ateísmo ou ao agnosticismo. Obviamente, qualquer pessoa bem instruída, vê que a instituição humana chamada “Igreja Católica” necessita rapidamente de mudanças, de uma metamorfose geral que lhe permita adaptar-se ao século XXI e aos que se seguirão. Conceitos que são hoje tomados pela Igreja como regras, são obviamente, medievais. No entanto, por vezes surge nas entrelinhas do livro, uma ideia também ela medieval de que a Igreja é um conjunto de pessoas muito más que tem túneis de dinheiro por baixo do Vaticano. Não o é. E isso mesmo é dito por R. Langdon (que para mim, é uma personagem claramente inspirada no próprio autor do livro) num dos capítulos, quando ele refere que é necessário reconhecer o enorme contributo que a Igreja Católica já deu e continua a dar em muitos quadrantes da sociedade. Um deles é na ajuda humanitária. A Igreja tem desempenhado um papel importantíssimo na ajuda a países sub-desenvolvidos, seja através do envio de missões, seja através de encontros mundiais que pretendem desenvolver um espírito de solidariedade e companheirismo. E por favor, não me venham com a história típica dos túneis do Vaticano que contém rios de dinheiro e que eles querem dominar o Mundo… Vá lá, isso já não cola. O Banco do Vaticano tem muito dinheiro? Tem. E quantos países não têm contas bem mais chorudas enquanto olham para a sua população em claro sub-desenvolvimento? A Igreja possui bens materiais luxosos? Possui. A maior parte deles são património mundial… É uma instituição como outra qualquer…
Mas avançando, este livro conta a história mais conhecida do Mundo de uma outra perspectiva, muito interessante. Eu pessoalmente, sempre me custou a acreditar em muita das coisas que me contavam e sempre fui um pouco revoltado em relação à instituição humana que é a Igreja Católica. Atenção, eu referi instituição humana. Até porque, a meu ver, nunca foi esta a Igreja que Deus quis. Sempre fui contra a ideia do senhor de barbas sentado numa cadeira lá em cima, a enviar trovões para castigar os maus. E sempre o serei.
No fundo, este livro deixou-me até bastante contente, pois mostrou-me que afinal, há mais gente que pensa como eu e embora não acredite no futuro da Igreja Católica assim como a conhecemos hoje, não deixa de acreditar em algo mais. Foi quase uma lufada de ar fresco que todos precisávamos. Afinal de contas, isto até me “aguçou” a fé que já possuía, não na Igreja, mas em algo superior. Até porque é bem mais credível um Cristo como é descrito no livro do que o Cristo que a Igreja inventou e até arriscaria dizer que é muito mais saudável e libertador acreditar nesta nova versão da história. Embora eu não goste de falar na “Igreja” num todo, pois é como em tudo, há bons e maus, há pessoas dignas e indignas em todas as instituições. E sinceramente, parece-me que esta mesma Igreja pode sofrer transformações internas, com a chegada de novas pessoas, como está a acontecer. Falem com um sacerdote com 60 anos e falem com um de 30 e comprovem a diferença. E olhem que até sei do que falo…
Resumindo, este livro é aconselhável a todos, mesmo aos mais cépticos em relação ao mesmo, como eu o era. É bom e recomenda-se. Havia tanto para dizer sobre o livro que se calhar, um dia vou reler o mesmo e voltar a escrever sobre ele. Se calhar nunca vamos saber a verdadeira versão da história, pois se há coisa que eu aprendi este ano, é que a verdade e a realidade são relativas, são apenas aquilo que nós vemos. O que não quer dizer que seja a verdadeira realidade…
Este livro aguça ainda a vontade de passear pela Europa e descobrir como é belo este continente… E digo-vos, para quem já visitou alguns dos locais referidos no livro, este livro dá uma espécie de saudade cá dentro e uma sede e vontade de percorrer todos aqueles locais. Ahh, quase que me esquecia, tinha que lá estar a Escócia no meio… O filme até toca um bocadinho na mitologia celta e nas antigas religiões celtas, chamem-lhe paganismo ou não… O que é certo é que lhe dá um toque de fininho e ainda bem, porque eu sou um grande admirador dessa cultura, que pratica o culto do feminino, que há muito foi esquecido pelas religiões actuais, que têm subjugado o quanto querem o feminino.
Resumindo, acho que ser crente ou não, não torna alguém mais ou menos inteligente, como às vezes se apregoa por aí… Se há coisa que este livro nos ensina, é a saber ver os dois lados da questão…
Ouvi falar no filme de “O Código Da Vinci” e assusta-me um pouco. O livro é tão bom que se calhar o filme vai desiludir… Até porque um livro é sempre um livro…
Luís Peixoto, the Scottish