O Representante do Governo Civil
Quem de nós não conhece aquela magnífica, soberba, inatingível figura, que é o “Representante do Governo Civil”. Ele está em todas. Lembro-me de ver a “extracção” dos números do Totoloto, na RTP, sempre com a presença desta mítica figura, sentada, ao centro de uma mesa composta por uma equipa de figuras que ainda hoje permanecem desconhecidas. Porém, apesar de aparecer em todos estes eventos públicos que envolvem qualquer tipo de sorteio, esta figura possui um lado sombrio, estranho. Sinceramente, nunca me lembro de ver estes representantes a esboçar qualquer tipo de reacção que demonstrasse alguma emoção. O que me leva a pôr em causa o seu carácter humano.
Mas esta mítica figura, na minha opinião, poderia ter uma aplicação muito mais vasta na sociedade. Em todos os jogos de futebol, devia haver um representante do Governo Civil, para dizer se o resultado é justo ou não. Nos restaurantes, haveria um destes representantes, ao lado de cada mesa. Imaginem:
“Olhe, hoje acho que vai ser uma de carne de vitela com arroz, se faz favor”; - dizemos nós.
“Muito bem” - responde o empregado;
“Ah! Olhe que não… O bacalhauzinho tá melhor. Mais gostoso” - diz o representante.
Mas sempre, sempre com uma expressão de figura inatingível.
Mais ainda, era interessante ter um representante do Governo Civil em cada sala de aula. Alguém ia à casa de banho a meio de uma aula, mas era prontamente reprovada pelo representante. No fim de cada aula, este avaliava o comportamento do professor. Se detectasse alguma irregularidade, mandava repetir a aula.
E havia ainda muitas mais aplicações práticas para esta figura incontornável e insubstituível que é o “Representante do Governo Civil”.
Luís Peixoto, the Scottish

