(Des)Encontro
Ele ali estava, naquele canto que fazia a esquina de duas ruas iguais a todas as outras. Ali, onde ele sempre pensou que deveria estar. Havia gente a passar, gente que deixava fugir o olhar para cima dele, como quem pensa “Estúpido. Aqui parado…”. E ele gostava. Olhava os carros, as pessoas, os pássaros, a calçada, as folhas. Sempre com a certeza que aquele era o sítio. Era ali que deveria estar. Com um sorriso nos lábios, ironizava com o olhar de desprezo dos outros. Fazia-o sentir-se bem pensar que mais tarde ou mais cedo, aquela gente ia perceber. Enquanto isso não acontecia, ironizava. A cada minuto que passava pensava quanto tempo já tinha passado ali. Sozinho, com certeza. Mas com o contentamento de saber que da próxima é que era. Meia mão dentro do bolso, meia fora, deixava transparecer um nada de impaciência. Já sabia quantas pedras aquela calçada tinha. Sabia que faltava ali uma, não porque as contou, mas porque ontem ela ali estava. “Não deve estar longe”, pensou. Talvez amanhã ela estivesse ali de novo. Amanhã… Voltou-se para o outro lado. Estava há demasiado tempo a olhar para ali. Mais gente a passar. O ruído de uma pedra solta de todas as outras a rolar pela calçada não lhe passou despercebido. Numa fracção de segundos, sentiu a pedra mais próxima. Voltou-se para ver, tentou-se desviar.
“Desculpe! A pedra estava solta, acertei-lhe sem querer ao caminhar e ela acertou-lhe a si…” - disse uma voz feminina que lhe aqueceu a alma.
“Não faz mal…” - disse enquanto sorria e encolhia os ombros, num tom de timidez…
“Magoei-o? Estava com pressa, desculpe…” - disse ela.
“Magoou. Ainda bem que o fez… Agora temos todo o tempo do Mundo para me curar…” - disse ele num tom confiante.
“Acha…?” - responde-lhe ela com um sorriso escondido e um olhar fugaz…
“Sim. Nunca tive tanta certeza…” - responde ele.
E por ali ficaram, naquela esquina de duas ruas iguais a tantas outras. Num dia igual a tantos outros…
Luís Peixoto, the Scottish
