A malta
Confesso. Estou farto de jantares em restaurantes onde se comem lombinhos “aux champignons” todos os dias e se bebe “vinho da casa”. A sério. Pelo menos durante um mês, não quero ouvir falar nesses jantares. Nos ultimos 15 dias foram três e já acho que foram muitos. Entre aniversários e jantares académicos… Não é que não goste, pelo contrário. Mas enche. Não porque comemos sempre o mesmo prato ou porque bebemos sempre o mesmo vinho duvidoso, mas sim porque perdemos todo e qualquer filtro social durante esse tipo de convívio. O álcool ajuda (em cerca de 95 %), mas não é a única desculpa. Não sei bem porquê, mas nesse tipo de jantares, qualquer ideia que surja, é concretizada. A sério.
- Eiiii, não és gajo de beber a garrafa de golada!!!
- Não quê??????
E tau. Garrafa de golada. Seguida de uma sempre agradável visita ao W.C… Olá Gregório. Isto só é comparável aos jogos de futebol quando somos crianças. Aqueles que duram a tarde toda e acabam 50-49. E somos sempre “gamados”. Estes jantares são como esses jogos. Alguém se lembra e diz:
- Não és homem de chutar do meio campo!
- Queres ver???
E “bira milho”. Bola pró adversário. Mas sempre de cabeça levantada, porque mostramos que somos homens ao chutar do meio campo. Aqui a história é a mesma. Se alguém se lembrar de atirar um suculento lombinho para o outro lado da mesa, é de homem. Se saírmos apoiados em dois amigos, com os olhos no chão, é de homem. Se conseguirmos vomitar mais longe do que os outros, é de homem.
Além disto, há o sempre presente ritual do “e se o Lopes quer fazer parte da malta…”. E pronto. A partir deste momento, está oficialmente encerrado o jantar propriamente dito. Passa-se a partir daqui, à chamada javardice. E ai de quem não beber o copo de golada. Não é da malta… E quem no seu perfeito juízo gosta de ser excluído da “malta”? Passas a ser uma espécie de anti-praxe. Se não bebes tudo, deixas de ser homem. Passas a ser um menino. E ai de ti que rejeites uma boa copaça de vinho tinto, mesmo que detestes. Vinho tinto é de homem. Naquele momento em que ouvimos “E se o … quer fazer parte da malta”, tudo deixa de ter importância. Apenas aquilo tem toda a importância do Mundo. Porque tens que ser da malta. Consigo imaginar uma assembleia geral da ONU. Numa qualquer decisão dificil de tomar, alguém se lembra e começa: “E se o Kofi quer fazer parte da malta…”. E o Kofi tem que beber até ao fim. Porque senão não é da malta…
Mas pior do que isso são aquelas pessoas que não têm ritmo. Ainda o cântico está a meio e já têm o copo vazio. Depois há os outros, que é preciso cantar para eles pararem de beber. E por aí fora…
Mas apesar de tudo isto, todos queremos ser da “malta”. Seja lá o que isso for.
E que bem que soube aquela golada de J.B. A seco…
Luís Peixoto, the Scottish