Bonjour Paris
Há precisamente um mês atrás, estaria eu a passear pelas ruas de Paris. Confesso que não sei dizer exactamente onde estava, porque nunca fui capaz de separar os dias. Para mim foi um dia. Decido hoje, com a devida distância de um mês, escrever sobre Paris. E sobre o que eu encontrei em Paris. E já agora, sobre o que eu deixei em Paris.
Pode-se dizer que aqui está frio? Pode… Mas o frio é diferente. Em Paris o frio é uma espécie de brisa gelada, seca, que convida a um passeio nas margens do Sena e por muito paradoxal que possa parecer, aquele frio aquece a alma. Senti-o mal pisei o primeiro degrau da escada do avião. E respirei. Para acreditar que estava mesmo lá. Curiosamente, o trânsito caótico fica-se pelos arredores… À saída de Orly, acho que entrei num filme indiano. Mas quanto mais entramos em Paris, menos trânsito vemos, a calma aparente só é interrompida pelo compasso que os turistas de livro na mão marcam. Porém, às vezes temos a sensação de que o ritmo de Paris não é mais do que “câmara lenta”. Estranho, no mínimo. Os nossos olhos são inundados por côr. As patisseries ou as boulangeries são intercaladas pelos cafes. Fiquei com a sensação de que os parisienses passam a vida a tomar café e a comer croissants. O que não é bem verdade. E que dizer do acolhimento e da simpatia? Muito… Nós, portugueses, gostamos de nos achar os mais simpáticos. Logo, todos os outros são arrogantes, narcisistas e antipáticos. É um dado adquirido… Até contactarmos com a realidade propriamente dita. Nunca entravamos numa loja, num café, num bar, em qualquer lado, sem que nos dissessem “Bonjour” ou “Bon soir”. Convenhamos que três indíviduos que de manhã descem a escada de um prédio de classe média-alta em fato de treino e chinelos seriam olhados de lado cá para os nossos lados. Pois. Mesmo assim, um sorriso de simpatia e um “Bon jour” nunca nos faltava. E obrigado aos parisienses por isso. Nunca me senti tão bem vindo numa cidade como em Paris.
Em Paris não há pessoas feias. Eu sei, não devia dizer isto, é feio. Mas não sei o que se passa naquela cidade que só vejo pessoas bonitas. Provavelmente era dos meus olhos. Não consigo esquecer as ruas de Paris. Mais do que a Notre-Dame, que a Torre Eiffel, que o Louvre ou que Saint-Sulpice, não consigo tirar da cabeça as ruas de Paris. Na sua simplicidade, conseguiam tornar cada canto acolhedor. Mesmo as ruas de Montmarte e do Pigale. Para quem não sabe, Pigale é uma espécie de “Red Light District”. Sexo porta sim - porta sim. Como é possível uma casa como o Moulin Rouge ser hoje uma das atracções principais de Paris? Só em Paris. Só numa cidade onde o preconceito não tem passaporte para entrar. O Metro é uma espécie de “Melting Pot”. É possível ver todo o tipo de pessoas no Metro. Acreditem quando digo “todo o tipo”. A sério. Curiosamente, transmite-me mais segurança do que outro Metro qualquer. Guardo com carinho especial o Jardin du Luxembourg. Acho que podia passar ali a minha vida. Em Paris, existem cadeiras para nos podermos sentar a observar a linha do horizonte. Simplesmente observar. Ou se quisermos conversar. Ou também podemos dormir. Ou ler. Ou ouvir musica. Tudo o que nos apetecer. Apetece-te pintar a linha do horizone? Força… Apetece-te dançar em cima da relva, sozinho ou acompanhado? Força… O jardim é teu enquanto lá estiveres. Podemos comer um crepe de Nutella enquanto passeamos. Ou um gauffre. Não imaginam como é bom sentir o frio na cara brevemente interrompido pelo calor de um crepe. Nem me obriguem a falar dos kebabs. A sério. Nem das meninas que nos trouxeram bebidas na noite da passagem de ano. Nem do casal inglês que tinha seguramente uns 60 anos, mas que parecia ter 20. Não me esqueço do olhar deles. Eram britânicos, acho. Um olhar apaixonado e terno. Olhavam à volta, para aquela praça que junta, celebrava a entrada em 2007. Os italianos e os espanhóis. Que tal como nós, adoram falar alto. E também, como nós, sabem fazer a festa. Acho que aquela praça já conheceu todas as nacionalidades do Mundo. O belo do Label 5 (não é Bósnia?). E o belo do Baileys (não é Mateus?)… O belo do charuto… É talvez o local de Paris que mais me marcou. A praça que dava acesso à Rue Mouffetard. Ai a Mouffetard… Curiosamente foi nessa praça que comprei um chocolat. Daqueles que estão destinados a ser comprados. Porque estão destinados a mudar a nossa vida. Espero voltar lá um dia e comprar outro. E quero ter o mesmo olhar do casal britânico.
Havia tanto para dizer… Tanto para descrever. Em Paris tinha vontade de ter uma handycam incorporada na retina, só para vos mostrar tudo o que eu vi. Mas nem isso chegava. Não há como estar em Paris. Só assim se percebe a dimensão daquela cidade. Só assim se percebe porque é que se chama a “Cidade do Amor”. Só assim se percebe porque é que inspira tantos filmes, livros ou músicas. Tenho a sensação que Paris foi criada por mão divina.
Ainda hoje penso nos passeios na margem do Sena. E ainda consigo sentir o frio que vem de lá. Consigo ouvir a água a tocar levemente nos muros e nos barcos à sua volta. Consigo ver as margens do Sena como se estivesse lá. E no fundo, até estou. Porque ninguém vai a Paris sem deixar um pouco de si por lá…
Provavelmente é daí que vem toda a beleza de Paris.
Quando voltamos lá? Desta vez vais comigo, pode ser?
Luís Peixoto, the Scottish
