Saturday, October 14, 2006

Ser da Tuna

Antes de começar a ler este post, recomendo que deixem todo o preconceito e estereótipo à porta deste blog. De preferência, bem longe da porta.

Posto isto, quero-vos falar do que é ser da Tuna.
Fui caloiro durante mais de um ano. Sou pré-tuno há alguns meses. Com todo o orgulho. Às vezes falam-me das tunas como quem fala de um grupo de rapazolas que à falta de estudo, junta uns copos e umas músicas. Eu pedi para o preconceito ficar à porta, pode ser? Vou-vos explicar o que é a Tuna.

Chamam-nos trovadores. Eu gosto. Mas isso é muito vago. Gostava que sentissem a dificuldade que estou a sentir ao escrever este post. Quero escrever tudo e não consigo escrever nada. Porque a tuna é mesmo assim. Não se explica. Não se define. Sente-se… É quase como saber o incómodo que é ter que vestir o traje ao contrário porque se é caloiro ou pré-tuno, mas ao mesmo tempo vesti-lo sempre como se fosse a primeira vez, com o mesmo orgulho de sempre. Eu vejo na Tuna o que não vejo numa simples turma de universidade. Eu não encontro na Tuna a inveja, o preconceito. Podemo-nos chamar de amigos? Podemos. Sei que sim. Porque em mais nenhum lado, podemos alinhar lado a lado como iguais e cantar o que nos vai na alma. Em mais lado nenhum podemos pegar numa guitarra e fazer com que todos cantem. Na Tuna, ninguém canta sozinho. Começem a cantar uma música sozinhos e gozem da sensação de orgulho de não estarem sozinhos. Traçem a capa numa noite fria de Inverno e toquem “Menina estás á janela” para uma senhora de 90 anos que está à janela. Sim, aconteceu. Em Terras de Bouro. Aconteceria em mais algum lado que não na Tuna? Sintam o vosso coração a cem à hora antes de subirem para o palco. Sintam o friozinho na barriga quando pisam pela primeira vez o palco de um festival. Olhem à volta. Vejam a Tuna em palco. Ao vosso lado. E acalmem o peito, o coração. Sintam que não estão sozinhos. Ali, somos muitos, mas somos um só. A Tuna. Percam o medo e deixem de sentir o firiozinho na barriga quando ouvirem os primeiros acordes de um bandolim ou de uma guitarra que sabem que não vai falhar. Encontrem outras Tunas, do outro lado do país, do outro lado do Mundo. Tratem-se como irmãos. Porque é o que vocês são. Criem laços com pessoas que nunca tinham visto. Emprestem instrumentos. São de todos. Emprestem uma capa se assim for necessário. Cantem bem alto o vosso amor por “Madalena”. Não tenham medo de afirmar que o vosso amor por alguém tem tanta força como tem a hera quando se enlaça na parede. Digam que hoje estão aqui. Tenham as melhores “Recordações” que conseguirem, sejam elas de noites longas ou não. Linda donzela, vem à janela que a Tuna passa… Mesmo que ela não venha à janela. Sabem o que é ouvir alguém anunciar que a Tuna vencedora é a vossa? Eu sei. Lembro-me do meu primeiro festival “a sério”. Foi no ISAVE. Ganhamos o prémio de Tuna mais Tuna e de Melhor Tuna. Sabiam que eu chorei? Não como uma madalena. Como um menino que não consegue guardar dentro do peito o orgulho de pertencer àquele grupo e como tal, tem que o deixar saír em forma de lágrima. E mesmo quando o nosso nome não consta da lista de vencedores, o orgulho é ainda maior. Porque sabemos que continuamos a ser a Tuna. Depois há os Tunos que sei que não vou esquecer. O Taveira, que por acaso é meu irmão, que sabe o que é um bandolim melhor do que ninguém. E que é meu irmão (e só por isso, já é o maior). O Marroquino, que comanda a Tuna como um verdadeiro líder. O Monhé!! Que é somente o gajo com mais piada que eu conheço e que tenho a certeza que ama a Tuna como poucos (e que sempre deu o maior apoio aos caloiros, obrigado por isso). O Melão… Que à parte de ser parecido com o António Peres Metello, transmite a maior confiança possível à Tuna. O Capone, o Testas, o Meco, o Sangue, o América… Tantos que eu não posso falar de todos… Depois há os pré-tunos, como eu. Acho que não vou falar destes. Havia tanto para dizer. E prefiro ir dizendo ao longo dos anos. Isto é a Tuna. Mais do que pessoas, mais do que uma música. É tudo isto e muito mais. Claro que gostamos de uns bons jantares, bem regados por uma boa bebida. Claro que gostamos de tocar serenatas às “meninas” (afinal não é para isso que existem as serenatas?). Claro que gostamos da boa vida. Quem não gosta? Mas somos muito mais do que isso… E podem ter a certeza que nunca iremos pousar a guitarra. Nunca iremos deixar de cantar. Porque aqui ou noutro local qualquer, a Tuna é sempre a Tuna. E iremos sempre continuar a tocar serenatas à luz da lua. Recordo com um sorriso a única serenata que tocamos a meu pedido. Foi por telefone… Gostava que tivesse sido de outra forma, mais pessoal. Mas dizem que o que conta é a intenção… Acho que tu também te lembras disso. E espero que também a recordes com um sorriso, apesar de tudo…

Há tanta coisa que fica por dizer. Estas linhas são uma gota no oceano… Sei que se tudo correr bem, no final deste ano lectivo, termino a minha licenciatura. Mas isso não quer dizer que não continue a ser da Tuna. Como me disseram um dia, “Tuno uma vez, Tuno para sempre”. E garanto, que irei continuar a ter o mesmo gosto e orgulho em ir aos ensaios, às actuações, aos festivais. Seja num Festival Internacional ou numa simples actuação em Cascos de Rolha, eu vou lá estar com o mesmo entusiasmo. E sei que vocês também.

Porque afinal de contas, isto é que é ser da Tuna.

 

Luís Peixoto, the Scottish

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Friday, September 23, 2005

O menino dos sonhos

Era uma vez um menino…
Um menino que nasceu na Terra dos Sonhos. Aqui, todos podiam sonhar. De dia, à noite, acordados, a dormir, o importante era sonhar. As casas eram feitas de sonhos, as ruas, os prados, as nuvens, o céu, o sol, tudo era feito de sonhos. O menino queria algo mais. Os sonhos não eram suficientes para ele.
Então este menino sonhou que um dia, ia ter uma máquina que transformava os sonhos em realidade. Trabalhou, chorou, sorriu, acima de tudo, viveu, até que conseguiu tudo o que queria para construir a máquina. Toda a Terra dos Sonhos invejava a sua criação. E toda a Terra dos Sonhos se reuniu para ver o menino a transformar os seus sonhos em realidade…
Um dia, ele quis mostrar a máquina a todas as pessoas da Terra dos Sonhos. Todos foram ver. O menino, cheio de vaidade, disse:
- “Finalmente, posso transformar os meus sonhos em realidade… Todos eles…”.
As pessoas olhavam e comentavam. Não pareciam muito convencidas. Mas se ali, os sonhos estavam por todo o lado, porque não deixar o menino sonhar?
Ele entrou na máquina e pensou em todos os sonhos que ele tinha. De súbito, apareceu um pote de ouro. Logo após, um camião de chocolates. A seguir, chegou um comboio, todo ele cheio de brinquedos. Então o menino pensou:
- “Falta-me algo…”.
Continuou a pensar… Até que exclamou:
- “Sim! É isso! O meu maior sonho é ser feliz!!”.
Mas nada. A máquina nada fez. Nenhuma luz se acendeu, nenhuma alavanca se moveu. Tentou mais uma vez. E mais uma… As pessoas riam-se enquanto iam embora, comentando umas com as outras. Todas, excepto uma.
Ele não conseguia entender porque é que a máquina não lhe dava a felicidade. Era um sonho como os outros, pensava ele… Até que alguém se aproximou. A única pessoa que não tinha ido embora e não tinha feito troça do menino. Aproximou-se, sentou-se junto ao menino e perguntou:
- “Porque choras?”.
Ele respondeu:
- “A minha máquina não me dá este sonho…”.
O menino chorou, chorou e continuou a chorar. A pessoa que estava com ele, continuou ali, sem dizer mais uma palavra sequer. Até que o menino, já sem mais lágrimas para chorar, perguntou:
- “Não te vais embora? Vais ficar aqui comigo?”.
- “Sim, até que sejas feliz…” - respondeu o desconhecido.
- “Então vais ter que ficar aqui para sempre…” - diz o menino.
Com toda a calma do Mundo, o desconhecido respondeu:
- “Sim, porque não? Se for preciso, fico…”.
E continuou a falar com o menino até que lhe disse:
- “Sabes. A máquina não te dá a felicidade. Sabes porquê? Porque não depende dela e muito menos de ti. A tua felicidade depende dos que estão contigo…”;
O desconhecido limpou as últimas lágrimas ao menino, dizendo:
- “Não chores. Eu nunca te abandonarei. E mesmo que não me possas tocar, eu prometo-te que vou estar sempre contigo. Pensas em mim e eu estou aqui.”.
O desconhecido afastou-se. Afastou-se até o menino não o conseguir ver.
Por fim, o menino levanta-se, olha à volta e não vê ninguém. O verde dos prados da Terra dos Sonhos parecia ser dele, o sol, parecia verdadeiro. Tudo aquilo parecia verdadeiro e não um sonho. O menino ergueu os olhos para o céu e pensou:
- “Só me falta um sonho… E não vou precisar desta máquina…”. Destruiu a máquina.

Descobriu que afinal, a verdadeira máquina dos sonhos, era ele próprio…

 

Luís Peixoto, the Scottish

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Sonhos Perdidos

Sonhos perdidos

Sinto o passado a voltar
E não encontro coragem para seguir…
Não consigo, é muito difícil continuar
Não vou ter tempo para conseguir…

O medo sou eu. E o medo não devia ter medo.
Mas eu tenho e não consigo deixar de ter.
Eu sinto que mesmo assim é demasiado cedo,
Não podes vir, pelo menos, sem eu saber?

Nenhuma estrela me guia agora.
Sinto que as luzes já não me agarram.
Não vejo o brilho de outrora,
Tal como eu, as estrelas já se apagaram.

A última lágrima não se distingue das outras,
Há demasiadas a caír e nada me acalma.
Este rio não pára. As lágrimas, são tantas…
Cada uma traz com ela uma réstia da minha alma.

Percebo que estou a acabar. Nada mais existe em mim.
As lágrimas, secaram. O sorriso, fechou…
Pergunto uma última vez se tem mesmo que ser assim.
Não sei. Talvez amanhã me respondam que nem tudo acabou…

 

Luís André Peixoto

 

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Wednesday, September 21, 2005

God will forgive me…

Hoje sinto-me mal. Não apenas porque me sinto mal fisicamente. Sinto-me mal comigo, com o que me rodeia. Não sei bem porquê, ou se calhar até sei, mas tenho medo de o admitir.
O simples facto de estar a escrever faz-me sentir mal. Nem a música “I Remember” do Damien Rice me faz sentir melhor. Às vezes parece que há algo que inveja a nossa felicidade. Parece que sentimos alguém a tolher-nos a alegria de viver, mas que não sabemos quem é, ou o que é. Se tivesse todo o poder do Mundo, ninguém era infeliz. Pelo menos por mais do que um dia. Um dia chega. Chega para vermos que não há nada que consigamos controlar. Tudo nos foge. E por muito que nos criem a ilusão contrária, apercebemo-nos sempre disso.
Ontem fui ver o “The Hithickers Guide to the Galaxy”. Sabe bem pensar como o filme. É bom imaginar que os planetas são construídos numa fábrica de planetas e que os humanos não passam de experiências controladas por ratos. E é bom saber que ninguém sabe qual o sentido da vida. O grande computador responde que é “42″. E diz-nos, com palavras sábias, que para percebermos a resposta, é preciso saber qual a pergunta. É isso que nos falta. Afinal, existirá algum sentido da vida? Ou somos apenas mais uma ínfima parte de um puzzle com milhões de peças? Mas se assim for, somos importantes na mesma…

Não sei. A única coisa que sei é que me sinto mal. Mas não me resigno.
A tristeza nunca me venceu. E ainda não é desta… A felicidade volta sempre.

 

Luís Peixoto, the Scottish

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Monday, September 19, 2005

Somos muchos…

 

Não sei se a sensação de vazio que fica depois deste fim-de-semana dura mais do que um dia. Mas mesmo que não dure, ela está cá. Vazio porque passamos três dias indescritíveis, muito provavelmente uns dos melhores dias destes 20 anos, mas que já acabaram. Mas para além do vazio, fica a sensação de que algo ficou incompleto, deixamos algo a meio, não sei. Parece que uma parte de mim ficou lá, naquela areia, naquela água, naquela madeira…
Mas, o vazio é logo preenchido com a certeza de um dia repetir esta vivência, de um dia voltar ao local que foi a nossa casa por três dias. E foi a nossa casa verdadeiramente. Uma casa preenchida de alegria. Uma casa que nos acolheu como se fosse nossa para sempre. E será, pelo menos na minha memória.
O número 65 passa agora a ter mais sentido. O conceito de férias adquire nova definição. Falo por mim, mas vivi três dias que valeram por quase três meses de férias. O trabalho está aí à porta, os dias de cansaço, as noites, ou melhor, as madrugadas de trabalho aproximam-se vertiginosamente de nós. Mas já as conhecemos. E só temos medo do desconhecido.
O que me deixa mais contente, apesar da sensação de vazio que precede estes grandes momentos, é saber que ninguém perdeu. Todos ganhámos. Eu ganhei porque me descobri, eu ganhei porque me encontrei. E além disso, descobri novas pessoas. As mesmas, mas novas pessoas. Porque eu vi coisas que nunca tinha visto. Porque eu ri como eu nunca tinha feito. E porque eu senti o que nunca tinha sentido. O quê? Senti que as melhores coisas da vida são as simples. É a areia da praia. É a água do mar. É a estrela que ilumina o céu. É a lua que ilumina a escuridão. Mais ainda, são os amigos. E de uma coisa eu nunca me vou esquecer. Nunca nos vi a rir assim. E que maravilha era sentar na cadeira de palha a olhar para o mar, a ouvir a guitarra que não se calará enquanto por cá estivermos, a reunir à mesa para algo muito mais forte do que uma simples refeição…
Eu podia fazer aqui um resumo do que se passou nestes três dias. Mas não o faço. Porque quem não esteve lá nunca iria entender o que foram estes dias, nunca iria perceber como nós o percebemos. Nunca iria ter presente na memória as imagens que nós temos ao ler este texto.
Há laços muito mais fortes do que pensamos. É curioso pensar que há apenas um ano atrás, isto era quase uma miragem.

Aposto que com meia dúzia de palavras vos posso fazer recordar quase tudo. Vai uma aposta?

“Natascho”;
“Somos muchos!!”;
“No nos comeis…”;
“Tá fechado!!”;
“AV”.

Acima de tudo, trago comigo a sensação de que aprendi e cresci. É difícil aprender muita coisa em três dias. Mas eu aprendi.
E sei que vocês também aprenderam…

 

Luís Peixoto, the Scottish
 

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Tuesday, September 13, 2005

Tempo de reflectir

Porque cada vez mais se inventam conceitos despropositados sobre o amor…

 

“Aquele que conheceu apenas a sua mulher, e a amou, sabe mais de mulheres do que aquele que conheceu mil.”

(Leon Tolstoi)

 

 

Luís Peixoto, the Scottish

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Wednesday, August 24, 2005

Folhas Caídas

Folhas caídas

Ainda oiço a tua voz lá ao fundo,
Tão longe que duvido da tua presença.
Recordo o olhar que entrou no meu mundo,
Perdido, sofrido, a cortar de forma intensa.

Acho que ainda hoje te consigo ouvir
Por detrás de todo este ruído.
Sabes bem que foi impossível não cair…
Mesmo assim sinto que nada foi perdido.

Nem um segundo teu eu perdi, nem sequer um olhar,
Sempre guardei em mim cada momento.
Nunca te olhei sem ter medo de me virar,
E ainda hoje me olhas e queimas cá dentro.

Hoje recordo as tuas palavras como devia,
E só hoje consigo ver o que somos.
Só tenho medo de pensar em tudo o que sabia,
Ignorando o que sei que nunca fomos…

 

Luís André Peixoto

 

 

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Tuesday, August 16, 2005

Sombra

 

 

Vamos saír deste círculo fechado
Porque lá fora há um novo mundo, o do querer.
Não tem que ser este o nosso fado,
Ás vezes não chega apenas parecer!

Estes fios que nos prendem e sufocam
São como teias tecidas por nós,
Quase nos afogam, quase que nos cortam.
Chega, queima-me estas cordas com a tua voz.

Tira-me esta sede, tira-me esta fome,
Não me deixes sozinho contra tudo.
Pelo menos leva-me contigo,
Nem que seja para me esquecer
Desta velha forma de viver.

Tudo é novo, mas nada se renova,
Parece que esquecemos o passado.
Vá lá, é só mais uma prova…
Não quero sentir que sou um ser acabado.

Parece que ninguém quer existir,
Afinal parece que sou só eu…
Este último fôlego faz-me sentir
Que tudo que é vida em nós ardeu…

Só te queria dizer que afinal,
A tua sombra é aquilo que tu nunca ousaste ser…

 

Luís André Peixoto

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