Ser da Tuna
Antes de começar a ler este post, recomendo que deixem todo o preconceito e estereótipo à porta deste blog. De preferência, bem longe da porta.
Posto isto, quero-vos falar do que é ser da Tuna.
Fui caloiro durante mais de um ano. Sou pré-tuno há alguns meses. Com todo o orgulho. Às vezes falam-me das tunas como quem fala de um grupo de rapazolas que à falta de estudo, junta uns copos e umas músicas. Eu pedi para o preconceito ficar à porta, pode ser? Vou-vos explicar o que é a Tuna.
Chamam-nos trovadores. Eu gosto. Mas isso é muito vago. Gostava que sentissem a dificuldade que estou a sentir ao escrever este post. Quero escrever tudo e não consigo escrever nada. Porque a tuna é mesmo assim. Não se explica. Não se define. Sente-se… É quase como saber o incómodo que é ter que vestir o traje ao contrário porque se é caloiro ou pré-tuno, mas ao mesmo tempo vesti-lo sempre como se fosse a primeira vez, com o mesmo orgulho de sempre. Eu vejo na Tuna o que não vejo numa simples turma de universidade. Eu não encontro na Tuna a inveja, o preconceito. Podemo-nos chamar de amigos? Podemos. Sei que sim. Porque em mais nenhum lado, podemos alinhar lado a lado como iguais e cantar o que nos vai na alma. Em mais lado nenhum podemos pegar numa guitarra e fazer com que todos cantem. Na Tuna, ninguém canta sozinho. Começem a cantar uma música sozinhos e gozem da sensação de orgulho de não estarem sozinhos. Traçem a capa numa noite fria de Inverno e toquem “Menina estás á janela” para uma senhora de 90 anos que está à janela. Sim, aconteceu. Em Terras de Bouro. Aconteceria em mais algum lado que não na Tuna? Sintam o vosso coração a cem à hora antes de subirem para o palco. Sintam o friozinho na barriga quando pisam pela primeira vez o palco de um festival. Olhem à volta. Vejam a Tuna em palco. Ao vosso lado. E acalmem o peito, o coração. Sintam que não estão sozinhos. Ali, somos muitos, mas somos um só. A Tuna. Percam o medo e deixem de sentir o firiozinho na barriga quando ouvirem os primeiros acordes de um bandolim ou de uma guitarra que sabem que não vai falhar. Encontrem outras Tunas, do outro lado do país, do outro lado do Mundo. Tratem-se como irmãos. Porque é o que vocês são. Criem laços com pessoas que nunca tinham visto. Emprestem instrumentos. São de todos. Emprestem uma capa se assim for necessário. Cantem bem alto o vosso amor por “Madalena”. Não tenham medo de afirmar que o vosso amor por alguém tem tanta força como tem a hera quando se enlaça na parede. Digam que hoje estão aqui. Tenham as melhores “Recordações” que conseguirem, sejam elas de noites longas ou não. Linda donzela, vem à janela que a Tuna passa… Mesmo que ela não venha à janela. Sabem o que é ouvir alguém anunciar que a Tuna vencedora é a vossa? Eu sei. Lembro-me do meu primeiro festival “a sério”. Foi no ISAVE. Ganhamos o prémio de Tuna mais Tuna e de Melhor Tuna. Sabiam que eu chorei? Não como uma madalena. Como um menino que não consegue guardar dentro do peito o orgulho de pertencer àquele grupo e como tal, tem que o deixar saír em forma de lágrima. E mesmo quando o nosso nome não consta da lista de vencedores, o orgulho é ainda maior. Porque sabemos que continuamos a ser a Tuna. Depois há os Tunos que sei que não vou esquecer. O Taveira, que por acaso é meu irmão, que sabe o que é um bandolim melhor do que ninguém. E que é meu irmão (e só por isso, já é o maior). O Marroquino, que comanda a Tuna como um verdadeiro líder. O Monhé!! Que é somente o gajo com mais piada que eu conheço e que tenho a certeza que ama a Tuna como poucos (e que sempre deu o maior apoio aos caloiros, obrigado por isso). O Melão… Que à parte de ser parecido com o António Peres Metello, transmite a maior confiança possível à Tuna. O Capone, o Testas, o Meco, o Sangue, o América… Tantos que eu não posso falar de todos… Depois há os pré-tunos, como eu. Acho que não vou falar destes. Havia tanto para dizer. E prefiro ir dizendo ao longo dos anos. Isto é a Tuna. Mais do que pessoas, mais do que uma música. É tudo isto e muito mais. Claro que gostamos de uns bons jantares, bem regados por uma boa bebida. Claro que gostamos de tocar serenatas às “meninas” (afinal não é para isso que existem as serenatas?). Claro que gostamos da boa vida. Quem não gosta? Mas somos muito mais do que isso… E podem ter a certeza que nunca iremos pousar a guitarra. Nunca iremos deixar de cantar. Porque aqui ou noutro local qualquer, a Tuna é sempre a Tuna. E iremos sempre continuar a tocar serenatas à luz da lua. Recordo com um sorriso a única serenata que tocamos a meu pedido. Foi por telefone… Gostava que tivesse sido de outra forma, mais pessoal. Mas dizem que o que conta é a intenção… Acho que tu também te lembras disso. E espero que também a recordes com um sorriso, apesar de tudo…
Há tanta coisa que fica por dizer. Estas linhas são uma gota no oceano… Sei que se tudo correr bem, no final deste ano lectivo, termino a minha licenciatura. Mas isso não quer dizer que não continue a ser da Tuna. Como me disseram um dia, “Tuno uma vez, Tuno para sempre”. E garanto, que irei continuar a ter o mesmo gosto e orgulho em ir aos ensaios, às actuações, aos festivais. Seja num Festival Internacional ou numa simples actuação em Cascos de Rolha, eu vou lá estar com o mesmo entusiasmo. E sei que vocês também.
Porque afinal de contas, isto é que é ser da Tuna.
Luís Peixoto, the Scottish




